Verde Amor Americano – Crônica escrita pelo jornalista e escritor Roberto Drummond, publicada no jornal Estado de Minas no dia 30 de outubro de 1977.

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Quero fazer um comício sobre você para 110 milhões de brasileiros, quero dizer aos meus irmãos do Oiapoque ao Chuí que eu nunca vi amor assim como você, verde amor americano!

Você que nunca morre.

Você que não finge de morto.

Você que não tem medo de ser você.

Você que não cede.

Você que vai seguindo, indiferente a tudo.

Você que ninguém obriga a ficar de joelhos.

Você que ninguém manda abaixar a cabeça.

Você que não abaixa os olhos.

Você que segue olhando de frente.

Você que cresce a cada manhã.

Você que nunca diminui de tamanho.

Você que não tenta estrangular você mesmo.

Você que não tenta matar você mesmo.

Verde amor americano!

Quero fazer uma bandeira com você e pendurar num auri-verde pendão para a brisa do Brasil ficar beijando e balançando e espalhando no vento a sua certeza, porque eu nunca vi um amor como você, verde amor americano!

Falam com você que você não deve amar o América, que é um amor tão difícil, tão cheio de espinhos, de cacos de vidro, de brasas para queimar, falam com você que deve haver algum amor mais tranqüilo, amor com gosto de sorvete de morango, amor branco e preto, amor azul, falam com você para você escolher um outro amor, porque há muitos amores para você escolher no Brasil, que é um país que é um mundo, falam com você no tanto que você pode ser feliz escolhendo outro amor, mas você, verde amor americano, fiel a você mesmo, vivendo do passado, se preciso, recordando um deca campeonato tão distante, agarrando-se em alegrias finas como um fio de cabelo de mulher, mas você caminha, verde amor americano.

Você caminha como um rio.

Caminha em curvas, caminha em remansos, caminha na água que parece parada, caminha voltando, caminha em correnteza, e eu já vi você cantar nas cascatas, verde amor americano!

Você nunca perde a certeza de chegar no mar.

Verde amor americano!

Quero fazer uma canção com você para 110 milhões de brasileiros ouvirem e sentirem que não há, neste mundo não há, nenhum amor como você, verde amor americano!

Quero por você cantando em 110 milhões de bocas.

Quero por você amando em 110 milhões de bocas.

Quero por você dando a 110 millhões de brasileiros a firmeza, que é a sua firmeza, verde amor americano, para os 110 milhões de brasileiros nunca estrangularem o amor que sentirem, para que os 110 milhões de brasileiros mudem de roupa, mudem de cidade, mudem de partido político, mudem de cor de cabelo, mudem de casa, mudem mesmo do Brasil, mas que nunca mudem de amor, que nunca capitulem no amor, porque a sua lição, verde amor americano, é uma lição realista: mais vale ser infeliz com o amor que a gente ama do que ser feliz com o amor que a gente não ama, se é que alguém possa ser feliz com o amor que não ama, e nunca amará, porque há decreto-lei para o coração, verde amor americano!

“Coelho na raça, deca no peito!”

‘Caso Carlinhos Cachoeira: as águas vão rolar?’ Texto de Selma Sueli Silva

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Destaque da Semana

Nesta semana, o que não faltou nos noticiários foram mais e mais detalhes do escândalo que deságua em cascata sobre a cabeça de muitos políticos de Brasília. A Receita Federal registra que o grupo de Cachoeira acumulou um patrimônio de cerca de R$ 30 milhões de reais – auditores identificaram imóveis, avião e automóveis de luxo em nome de pessoas próximas ao contraventor, além de indícios de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Muito dinheiro. Uma análise preliminar mostra que o contraventor declarava rendimentos que variavam de R$ 60 a R$ 70 mil reais, mas seu patrimônio chegava a mais de R$ 4 milhões de reais.

Na quarta-feira, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Cachoeira finalmente foi instalada no Congresso. O deputado Odair Cunha, daqui de Minas, escolhido como relator, afirmou ser um petista “fiel”, adiantando que o foco não é o governo, é o contraventor, mas se por acaso acontecer uma mudança de rumo nas investigações, a comissão vai apurar tudo, “doa a quem doer”.
Com 41 dos 63 parlamentares membros, os governistas tem o controle da CPI. O PMDB escalou políticos suplentes e inexperientes, deixando, ao que parece, ao PT, a tarefa de blindar o Planalto. O presidente do Senado, José Sarney, disse que o Congresso viverá “algum tempo de muitas revelações e turbulências”.

E o país inteiro se pergunta: com a CPI de Carlinhos Cachoeira as águas vão ou não rolar? E cabeças? Um passeio pela memória política pode nos ajudar a tentar responder essa pergunta…

Passados vinte anos desde a CPI de Paulo César Farias, cujo principal desdobramento foi o processo de impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, o Brasil acumula 92 CPIs instauradas no Congresso Nacional nessas duas últimas décadas. Foram comissões criadas pela Câmara, pelo Senado ou Mistas (com senadores e deputados). Entre as já encerradas, cerca de 25% não aprovaram nenhum relatório, ou seja, nenhum documento que, aprovado pela comissão, permitisse que outros órgãos e outras instâncias punissem eventuais culpados de desvios.

Das 92 comissões criadas, sete estão em curso atualmente. Isso inclui a CPI mista do caso Cachoeira e as comissões que investigam supostas irregularidades no ECAD (escritório que faz a arrecadação e distribuição de direitos autorais) e o tráfico internacional de pessoas no Brasil.

O estudo que levantou esses dados aponta que “as CPIs são objeto de sentimentos contraditórios por parte da sociedade e da imprensa. Ao mesmo tempo em que é lugar comum dizer que elas nunca levam a nada, sempre que se acha necessário investigar melhor algum acontecimento no âmbito do governo, defende-se fervorosamente a instalação de CPIs”.
A questão-chave é que essas comissões têm limites de atuação – ou seja, podem investigar, mas não podem indiciar ou punir criminalmente, funções que cabem à Justiça. Daí o motivo de causarem tanto furor e, ao mesmo tempo, tanta frustração entre os brasileiros.

As comissões têm amplos poderes investigativos – para convocar testemunhas e colher provas, por exemplo –, “mas não podem decretar nenhum tipo de prisão, nem aplicar cautelas como indisposição de bens e proibir (suspeitos) de deixar o país”.
No máximo, podem recomendar ao Ministério Público ou ao Tribunal de Contas da União, por exemplo, que prossigam com a responsabilização civil ou criminal das pessoas envolvidas nos casos investigados.

Para Marco Antonio Teixeira, do Departamento de Gestão Pública da FGV de São Paulo, é aí que está mais um motivo da frustração. Ele explica que “O gargalo é o Judiciário. Vemos que o caso do Mensalão, cujo processo é resultado da CPI dos Correios (2005), só agora está na pauta do Supremo Tribunal Federal.” Muitos dos crimes ali investigados já estão prestes a prescrever.

Levantamento do jornal Folha de S. Paulo em setembro do ano passado mostrava que os principais casos de corrupção do país se arrastam há anos ou décadas pela Justiça. Um exemplo é o caso de desvio de dinheiro conhecido como o dos “Anões do Orçamento”, de 1993, que foi alvo de CPI. Dos mais de 31 réus, apenas nove foram condenados. Muitos usaram o subterfúgio de renunciar ao mandato e depois voltaram, nos braços (e no voto) do povo. Hoje, graças à Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular, é bom lembrar, isso não é mais possível.

Os relatórios finais de CPIs também podem recomendar, ao próprio Legislativo, a cassação de um congressista envolvido em denúncias. Mas daí isso terá que ser analisado pelo Conselho de Ética da Casa, e quando se trata de Conselho de ética em Brasília, todo mundo fica com a pulga atrás da orelha…

Mas a CPI está aí. Cachoeira está preso e Demóstenes Torres, qual vagalume político, aparece e desaparece nos plenários, desfilando impávido, como a lembrar aos seus pares: só eu? E os outros?

E a gente cantarolando: “As águas vão rolar…”

Ver vendo, de Otto Lara Rezende

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… De tanto ver, a gente banaliza o olhar… Vê não-vendo…
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver…
Parece fácil, mas não é…

O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade…
O campo visual da nossa rotina é como um vazio… Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta…

Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe…
De tanto ver, você não vê…

Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio de seu escritório… Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro… Dava-lhe um bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência… Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer… Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia… Em 32 anos, nunca o viu… Para ser notado, o porteiro teve que morrer… Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência… O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem…

Mas há sempre o que ver… Gente, coisas, bichos… E vemos? Não, não vemos…

Uma criança vê o que um adulto não vê… Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo… O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê…

Há pai que nunca viu o próprio filho… Marido que nunca viu a própria mulher (e desconhece os seus segredos e desejos), isso existe às pampas…

Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos… É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença…

O cachorro e o açougue

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Um açougueiro estava em sua loja e ficou surpreso quando um cachorro entrou. Ele espantou o cachorro, mas logo o cãozinho voltou. Novamente ele tentou espantá-lo, foi quando viu que o animal trazia um bilhete na boca. Ele pegou o bilhete e leu:

- ‘Pode me mandar 12 salsichas e uma perna de carneiro, por favor’.

Ele olhou e viu que dentro da boca do cachorro havia uma nota de 50 Reais. Então ele pegou o dinheiro, separou as salsichas e a perna de carneiro, colocou numa embalagem plástica, junto com o troco, e pôs na boca do cachorro.

O açougueiro ficou impressionado e como já era mesmo hora de fechar o açougue, ele decidiu seguir o animal.

O cachorro desceu a rua, quando chegou ao cruzamento deixou a bolsa no chão, pulou e apertou o botão para fechar o sinal. Esperou pacientemente com o saco na boca até que o sinal fechasse e ele pudesse atravessar a rua.

O açougueiro e o cão foram caminhando pela rua, até que o cão parou em uma casa e pôs as compras na calçada. Então, voltou um pouco, correu e se atirou contra a porta. Tornou a fazer isso. Ninguém respondeu na casa. Então, o cachorro circundou a casa, pulou um muro baixo, foi até a janela e começou a bater com a cabeça no vidro várias vezes. Depois disso, caminhou de volta para a porta, e foi quando alguém abriu a porta e começou a bater no cachorro.

O açougueiro correu até esta pessoa e o impediu, dizendo:

-’Por Deus do céu, o que você está fazendo? O seu cão é um gênio!’

A pessoa respondeu:

- ‘Um gênio? Esta já é a segunda vez esta semana que este estúpido esquece a chave!’

A Verdade, de Carlos Drummond de Andrade

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A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade…

Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.

Castelo de Areia

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Num dia de verão, eu estava na praia, espiando duas crianças na areia. Trabalhavam muito, construindo um castelo de areia molhada com torres, passarelas e passagens internas. Quando estavam perto do final do projeto, veio uma onda e destruiu tudo, reduzindo o castelo a um monte de areia e espuma.

Achei que as crianças cairiam no choro depois de tanto esforço e cuidado, mais tive uma surpresa: ao invés de chorar, correram para a praia fugindo da água, rindo, de mãos dadas, e começaram a construir outro castelo.

Compreendi que havia recebido ali uma importante lição: tudo em nossa vida, todas as coisas que gastam tanto de nosso tempo e de nossa energia para serem construídas, tudo é passageiro, tudo é feito de areia, o que permanece é o relacionamento que temos com as outras pessoas.

Posto, logo existo, de Martha Medeiros

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Começam a pipocar alguns debates sobre as consequências de se passar tanto tempo conectado à internet. Já se fala em saturação social, inspirado pelo recente depoimento de um jornalista do The New York Times que afirmou que sua produtividade no trabalho estava caindo por causa do tempo consumido pelo Facebook, Twitter e agregados, e que hoje ele se vê diante da escolha entre cortar seus passeios de bicicleta ou alguns desses hábitos digitais que estão me comendo vivo.

Antropofagia virtual. O Brasil, pra variar, está atrasado (aqui, dois terços dos usuários ainda atualizam seus perfis semanalmente), pois no resto do mundo já começa a ser articulado um movimento de desaceleração dessa tara por conexão: hotéis europeus prometem quartos sem wi-fi como garantia de férias tranquilas, empresas americanas desenvolvem programas de software que restringem o acesso à web e na Ásia crescem os centros de recuperação de viciados em internet. Tudo isso por uma simples razão: existir é uma coisa, viver é outra.

Penso, logo existo. Descartes teria que reavaliar esse seu ‘cogito, ergo sum’, pois as pessoas trocaram o verbo pensar por postar. Posto, logo existo.

Tão preocupadas em existir para os outros, as pessoas estão perdendo um tempo valioso em que poderiam estar vivendo, ou seja, namorando, indo à praia, trabalhando, viajando, lendo, estudando, cercadas não por milhares de seguidores, mas por umas poucas dezenas de amigos. Isso não pode ter se tornado tão obsoleto.

Claro que muitos usam as redes sociais como uma forma de aproximação, de resgate e de compartilhamento – numa boa. Se a pessoa está no controle do seu tempo e não troca o real pelo virtual, está fazendo bom uso da ferramenta. Mas não tem sido a regra. Adolescentes deixam de ir a um parque para ficarem trancafiados em seus quartos, numa solidão disfarçada de socialização. Isso acontece dentro da minha casa também, com minhas filhas, e não adianta me descabelar, elas são frutos da sua época, sua turma de amigos se comunica assim, e nem batendo com um gato morto na cabeça delas para fazê-las entender que a vida está lá fora. Lá fora!!

O grau de envolvimento delas com a internet ainda é mediano e controlado, mas tem sido agudo entre muitos jovens sem noção, que se deixam fotografar portanto armas, fazendo sexo, mostrando o resultado de suas pichações, num exibicionismo triste, pobre, desvirtuado. São garotos e garotas que não se sentem com a existência comprovada, e para isso se valem de bizarrices na esperança de deixarem de ser “ninguém” para se tornarem “alguém”, mesmo que alguém medíocre.

Casos avulsos, extremos, mas estão aí, ao nosso redor. Gente que não percebe a diferença entre existir e viver. Não entendem que é preferível viver, mesmo que discretamente, do que existir de mentirinha para 17.870 que não estão nem aí.

Lenda Persa

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Dois homens se apresentaram ao rei para uma tarefa. Foram contratados por um salário fixo. Depois de alimentados, voltaram à presença do soberano para ouvir a respeito de suas tarefas.
A primeira ordem foi que cada um pegasse uma cesta, colocando-a ao lado do poço. Iriam, alternadamente, tirar a água do poço para despejá-la dentro da cesta. No final do dia, o rei, pessoalmente, iria apreciar o trabalho deles.

Depois de cinco ou seis baldes de água tirados e jogados na cesta, um
dos contratados disse:
– Afinal, qual é o valor desse serviço? Quando lançamos a água dentro
da cesta, ela se escoa imediatamente!
O outro, entretanto, respondeu:
– O rei certamente conhece a utilidade do nosso trabalho. Ele sabe o
valor dele, do contrário não teria nos contratado.
– Pois não vou gastar minhas energias na execução de uma tarefa assim.

Dizendo isso, deixou de lado seu balde e partiu. O outro homem,
pacientemente, continuou o trabalho. O poço continha muita água, mas,
sem desanimar, ele foi repetindo a operação até que conseguiu
esgotá-lo.
Olhando atentamente para o fundo do poço forrado de lodo,
ele viu que havia lá um objeto que brilhava intensamente. Era um
valioso anel de diamantes! O homem pensou:
“O meu esforço teve sua utilidade. Foi útil e necessário!”
Na hora marcada, o rei chegou e encontrou somente um dos contratados que se manteve fiel as suas ordens. O rei falou:
– Parabéns pelo seu esforço e pela sua persistência. Por diversas
vezes, contratei outros servidores, mas todos desistiram no meio do
caminho. Nenhum deles teve, é claro, sua compensação. Tome: este anel é seu!

‘Trânsito e motociclistas: é possível uma convivência pacífica?’ Texto de Selma Sueli Silva

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Destaque da Semana

Acidentes de trânsito não são raros no Brasil nem no mundo. No entanto, nesta semana, câmeras de segurança e vídeos feitos por cidadãos comuns registraram casos incomuns. Em Belém, no Pará, uma ambulância pegou fogo enquanto transportava um paciente ao hospital. Em São Paulo, um motorista perdeu o controle e voou com seu carro, cravando-o na parede do segundo andar de uma casa. Situação mais dramática ocorreu no Peru, onde policiais lançaram o carro contra uma mulher e duas crianças. A população revoltada atacou e queimou a viatura em seguida.

Aqui, em BH, os motociclistas é que viraram notícia. Afinal, eles são as maiores vítimas da guerra na qual se transformou o trânsito das grandes cidades de todo o país. Só para se ter uma idéia, Minas Gerais tem uma média de 28 acidentes por dia envolvendo motos. Apenas no ano de 2010 foram 78 mortes de motociclistas no Estado. Sem contar aquele motociclista que não morre mas fica com traumas e sequelas para o resto da vida. Um problemão para ele, para sua família e para o SUS – Sistema Único de Saúde. Ou seja, para o bolso do contribuinte…

Uma das causas desses números absurdos é a pressa, que faz os motociclistas correrem mais, se arriscarem muito, ao disputarem espaço com veículos maiores. A desigualdade dessa disputa, no caos do trânsito, se transforma num mero detalhe. Mas esse ‘detalhe’ se agiganta quando, todos os dias, ‘tá lá o corpo estendido no chão.’

Afinal, quem é esse motociclista que se arrisca tanto? É o motoboy? É um playboy? Quem são esses cidadãos anônimos, camuflados sob seus capacetes? Em muitos locais públicos, como postos de gasolina e lotéricas, é proibido entrar de capacete, usados, muitas vezes, para esconder o rosto do assaltante da vez.
Quem é, repito, o motociclista parado ao meu lado, no sinal? Será alguém sequer habilitado?
Preocupadas com isso, as autoridades começam a se mobilizar: o exame de rua para tirar carteira de moto pode sofrer alterações ainda este ano. A primeira mudança deve ser a exigência de 40 horas de aulas antes do primeiro teste, sendo 20 horas na moto-pista e as outras 20 em aulas práticas nas ruas. Hoje o candidato só precisa fazer 20 horas de aula numa pista fechada para marcar o exame.
A possível alteração é um pedido do Detran de Minas Gerais ao Denatran, o Departamento Nacional de Trânsito. Outro pedido do Detran de Minas é a inclusão de teste de rua no exame prático para motociclistas.

De fato, para ficarmos apenas no território da legalidade, deixando de lado a bandidagem em duas rodas, passou da hora de alguma coisa mudar nos cursos de habilitação para motos e nos testes para a carteira de habilitação. É preciso que as aulas de pilotagem sejam eficazes no sentido de prevenir os fatores que fazem tantas vítimas em acidentes de moto. Por isso, nada mais responsável que cobrar qualidade dos cursos que, hoje, não ensinam a pessoa a conduzir uma moto num trânsito real e, muito menos, a ter comportamento necessário à convivência com os outros veículos de modo civilizado e seguro.
Podemos dizer o mesmo dos cursos de formação de condutores de carros convencionais, mas é que as conseqüências de um acidente, com um motociclista, são incomparavelmente mais graves.

Assim, vale insistir e perguntar: é concebível, em pleno século 21, termos aulas de pilotagem de moto em quadras demarcadas que nem de longe sonham em reproduzir o trânsito de nossas ruas e avenidas? E, pasmem, não só o treinamento, mas a prova também é feita nesta quadra com pistas simuladas. Daí vem a carteira e o incauto habilitado pode ganhar as ruas e as rodovias Brasil afora. O resultado não poderia ser pior: apenas em Minas, 28 acidentes por dia envolvendo motos, numa verdadeira guerra que se descortina diante dos olhos da população e autoridades que, resignadas, limitam-se a computar – mais um!

É preciso reconhecer o problema, cobrar providências porque essa resignação custa caro às famílias e aos cofres públicos também. Os órgãos federais de transito em conjunto com os Detrans, a polícia de trânsito, departamentos municipais e a sociedade devem se unir e repensar a situação. O trânsito, antes de ser composto por máquinas velozes e mortíferas deve ser formado por seres humanos com compromisso com a vida.

Nesta semana, foi dada a largada com o Departamento Nacional de Trânsito que confirmou as alterações no processo para tirar carteira de moto. Enquanto essas mudanças não chegam vamos fazer a nossa parte para uma convivência pacífica, saudável e inteligente no trânsito. Antes de qualquer reação impulsiva, que transforma o médico no monstro que esfaqueia, vamos nos lembrar sempre de que “O homem comum fala, o sábio escuta e o tolo discute.”

Desejo, de Carlos Drummond de Andrade

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Desejo a você…
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos

Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal

Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel…
E muito carinho meu.

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