Eu sei, mas não devia – Marina Colassanti
18 de Janeiro de 2012 por José Lino | Categorias: Texto de Abertura do Programa Rádio Vivo | 4 Comentários »
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas se costuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz.(…)
A gente se acostuma esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
(…)
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma a não se ralar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida.
E aos poucos a vida se gasta. Gasta de tanto se acostumar e se perde de si mesma.

Obrigada Marina, por nos traduzir tão poeticamente numa dor que parecia intraduzível. Estou de alma lavada. E vou repensar tudo. “Temos a arte para que a verdade não nos destrua.” Obrigada…
Costumava utilizar este texto em minhas palestras na decada de 80 para reflexão!!!Excelente para desconstruir a acomodação!!!!!PARABENS !!!SOU FÃ DE CARTEIRINHA DO CASAL MARINA E AFONSO
Nossa, Marina, que texto lindo! É bom ter alguém que traduza
as nossas angústias, o nosso dia-a-dia corrido,inquietatante e verdadeiro, como você o faz.
Parabéns, e obrigadada por ser a nossa voz.
hoje resolvi fazer uma faxina nos papelamas,tudo o que vou guardando ao longo do tempo e encontrei uma pagina de revista toda amarelada ,não sei desde quando eu guardo ,nunca quis jogar fora pois e´muito bonito o tema e ai me deu um estalo : vou procurar na internet e como encontrei
ja posso jogar o meu papel amarelado