Tem solução sim!

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Num ponto, os movimentos sociais estão cheios de razão. Querer atribuir às manifestações os congestionamentos do trânsito na capital é, no mínimo, faltar com a verdade. Uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa mostrou não apenas que há providências que podem fazer a diferença como também o grau de comprometimento de cada instituição para com o problema. O representante da Bhtrans, empresa responsável pela administração do tráfego e trânsito de veículos na cidade, não soube responder se, com base no Código de Posturas, o fiscal não poderia rebocar veículos que são abandonados no meio da rua – em um dos casos há 10 anos. Mas, por outro lado, o comandante do Batalhão de Trânsito, coronel Roberto Lemos fez belíssima palestra, mostrando ter se preparado e elencando uma serie de sugestões para melhoria do tráfego, algumas delas absolutamente possíveis.

Para não ficar só em palavras, o comandante mostrou dados ao ilustrar o aumento das manifestações que terminam em interrupção do tráfego de veículos, com danos consideráveis ao trânsito de toda a área central. Sugeriu entendimento das autoridades com os responsáveis pelos movimentos sociais para se compatibilizar a livre manifestação com o interesse da maioria. Mas, foi além: pediu que os governos estadual e municipal dessem o exemplo, criando turnos diferentes para os servidores, de forma que nem todos precisem se deslocar ao mesmo tempo, medida que pode também ser seguida na iniciativa privada; pediu que as obras do BRT e outras que causam impacto sejam realizadas também à noite, aos sábados, domingos e feriados para apressar a conclusão; pediu a carona solidária aos cidadãos, o táxi lotação nos bairros, enfim, o coronel sugeriu uma nova postura, em que a autoridade converse com o cidadão quando for fazer alguma coisa. E deu belo exemplo: quando o engenheiro for asfaltar uma praça, pergunte a quem more por perto como pode fazer o melhor, para evitar que as pessoas pisem na grama porque alteraram o seu caminho natural.

Resumindo, o coronel deu um show. E, como o deputado João Leite concorda que estamos a um passo do caos definitivo, deverá aproveitar as sugestões e criar novas discussões. É agora ou nunca. Solução tem. É só a gente tirar o traseiro do gabinete e ir para as ruas. Observar, parlamentar e ter coragem de agir.

Quinta-feira louca

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Perdoem-me caros leitores se retorno a um assunto chato e que pode parecer coisa de quem é contra a livre manifestação e às lutas sérias que a sociedade precisa enfrentar. Mas, reflitam comigo e depois me digam se sou um aborrecido ou cumpro meu dever de jornalista, de apontar fatos que atrapalham a vida da maioria das pessoas. Vem aí mais um desfile da Escola de Samba “Liberdade Ainda que Tam Tam”, uma iniciativa do Fórum Mineiro da Saúde Mental, composto por trabalhadores, usuários e familiares da rede de saúde mental de todo o estado, pela ASUSSAM (Associação dos Usuários dos Serviços de Saúde Mental de Minas Gerais) e representantes de conselhos de classes. Participam também representantes de movimentos sociais, culturais e outras organizações da sociedade civil.

Excetuando Hiram Firmino – cujo trabalho na época dos porões da loucura foi muito premiado – poucos jornalistas como eu visitaram aqueles centros de internação de Barbacena e os repudia tanto. Mas, como não tenho compromisso com o “politicamente correto”, faço questionamentos a posições dos que levam adiante a Luta Antimanicomial, e tenho insistido que a resistência deles à internação compulsória é uma das causas de tantos crimes e tantos transtornos que os usuários têm causado. E de que são vítimas. E outra coisa que me chateia há anos é o tal desfile da escola de samba. Dois ou três anos atrás o secretário de Estado da Saúde, o psiquiatra Antonio Jorge, gastou duas horas e meia entre Rua Sapucaí e a sede de sua pasta, na Afonso Pena. No ano passado, às vésperas do Dia da Luta Antimanicomial, o prefeito Márcio Lacerda avisou que deveriam limitar sua ação à Praça da Liberdade, onde seria a concentração.

Este ano, o 18 de março é sábado, mas a turma já avisou que a concentração será amanhã, a partir de 13 horas, na Praça da Liberdade, de onde sai o desfile, as 14h, “pelas ruas da cidade”. O slogan desse ano é sugestivo: “Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”. Meu Deus do céu, o desfile não poderia ser na manhã do sábado? Ou no domingo, para se aproximar da Feira Hippie e ganhar o que todo manifestante sonha, que é a “visibilidade”. Por que todos nós queremos fechar a Afonso Pena todo dia, mas, de preferência, à tarde, tornando a vida de quem precisa ir e vir um inferno? É muito sofrimento, físico e mental.

Avanços espetaculares

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Uma amiga, Beatriz Lima, perguntou se sou capaz de adivinhar o que vai acontecer com o jornalismo daqui há algum tempo. Respondi não crer que o mais inteligente ou experiente jornalista consiga prever o futuro da profissão para os próximos dez anos. No caso da mídia impressa, duvido que alguém tenha algo concreto para o ano das olimpíadas no Brasil – 2016. É que as mudanças são drásticas demais, a tecnologia da informação não se cansa de nos surpreender e as facilidades para se ter em mãos a informação do momento são impressionantes. Não sei, portanto, se uma bomba que explodir as 10 da manhã em Boston ainda será notícia no matutino do dia seguinte. Se tivesse de dar um conselho à mídia eletrônica diria para a TV se tornar cada vez mais instantânea, o rádio partir para a segmentação e o jornal diário migrar com competência e rapidez para o portal de internet.

As mudanças são tão fantásticas que um exemplo basta: em 1986, depois de uma serie inacreditável de outras tentativas, o governo federal anunciou o plano Cruzado, que prometia guerra total à inflação. Naquela ocasião, tive uma ideia, logo aprovada pela chefia, que consistia em visitar três supermercados (os mesmos) todos os mesmos e fazer pesquisa de preços (dos mesmos produtos) para, assim, anunciar a verdadeira majoração de preços, fruto das maquininhas de remarcar que funcionavam a noite inteira. Durante anos, foi um sucesso. Os ouvintes acompanhavam, comentavam e pediu a inclusão de outros produtos na lista, certos de que a inflação oficial jamais batia com a real.

Um dia, ouvi falar de um novo site, Mercado Mineiro, e procurei o seu criador. Convencido de que Feliciano Abreu era muito mais confiável do que muita gente que se apresenta como defensor do consumidor, passei a divulgar o trabalho que, por sua credibilidade, ganhou outros veículos e hoje é uma unanimidade. Detalhe: agora, quem precisar de preços pode não apenas ser mais um dos 20 mil que acessam o site todo dia, mas, desde que cadastrados, alterar os próprios preços, de forma a torná-los competitivos. Já imaginaram o que isso significa para jornalistas, para prefeituras que precisam fazer licitações decentes, para todos, mas, sobretudo para quem precisa comprar? Existe alguma chance para o jornalista que não sintonizar numa frequência como essa?

Ô lugar de gente prá baixo!

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Há, entre nós, um sem número de pessoas pessimistas, do tipo que reclama de tudo, são “prá baixo”, descobrem sempre um defeito, enxergam apenas o pior. Repare. Belo exemplo é o futebol, nossa paixão maior. Graças à Copa do Mundo – e já sei que muitos são contra, acham um absurdo, que o Brasil vai perder a Copa, etc. – os dois estádios da capital foram reformados. Ficaram lindos. Ganharam administradores como acontece em qualquer lugar. Aí, vem o cidadão e diz: “Vocês, da imprensa, deviam dizer que estão elitizando o futebol, cobrando 60 reais por ingresso; já pensou se vou a dois jogos por semana, oito por mês, quanto vou pagar?”. Sou obrigado a dizer: para se assistir a um bom espetáculo, em qualquer lugar do mundo, paga-se, no mínimo, 30 dólares ou 60 reais. Agora, incrível é poder ir oito vezes ao estádio num só mês.

Sem falar que o torcedor pode escolher: paga 60 e vê Ronaldinho Gaúcho no Galo e Dedé no Cruzeiro, ou paga 10 prá ver Renan Oliveira no Galo e Dodô no Cruzeiro. Quando o show é bom, custa caro. E, infelizmente, não é para todos. Cabe a nós nos programarmos para juntar um dinheirinho e, de vez em quando, viver uma grande emoção. Da mesma forma que a gente não leva a família toda para a churrascaria famosa todo dia ou viaja para Paris toda semana. E quando reclamam que o Paul MacCartney em Belo Horizonte foi só para rico ver, pergunto: e os taxistas que rodaram a noite toda, e os hotéis (não apenas o dele) lotados, os garçons, a mulata que fez massagem no astro, as vans contratadas, o giro do dinheiro, os empregos diretos e indiretos…

Reclamamos de tudo. Se alguém nos lembra de que nosso céu é o mais lindo do mundo a gente reage: ah, mas tem pouca estrela de dia! A Copasa acaba de inaugurar uma estação elevatória que vai ampliar para 80 por cento a retirada de esgotos da Lagoa da Pampulha e, ao fim desse ano, chegaremos a 95 por cento… Reagimos dizendo: “Acredito não”!. A Organização das Nações Unidas acaba de apontar Belo Horizonte como exemplo de cidade “resiliente” , isto é, aquela que tem capacidade de suportar momentos difíceis, como uma grande chuva. Quando a noticia chegar ao grande público, em vez de comemorarmos vamos rir até, como se ouvíssemos a piada mais engraçada do ano. E sequer nos damos ao trabalho de lembrar a quanto tempo não morre ninguém nos morros durante a chuva. Que tal jogarmos prá cima?

Terra boa, mas, complicada…

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Belo Horizonte é o melhor lugar do mundo prá se morar. Pelo menos essa é a minha sensação. O clima é ameno, oscila como tropical, mas nunca é de extremos; as pessoas conservam um jeitão interiorano de pouca pressa; ainda temos lugares públicos em que os desprovidos de mais recursos vão para se divertir como os parques e o nosso Mercado Central é qualquer coisa de fenomenal. Sem esquecer o Distrital do Cruzeiro, a Feira dos Produtores e essas feirinhas semanais que são o máximo, como a da Savassi, e as fixas, como a do Bairro São Paulo.

O problema da capital de todos os mineiros é que ela insiste em ser caipira, não no sentido bom da palavra, mas, atrasada, provinciana, que precisa se discutir para evoluir, ter vida, ser feliz, solidária, humana. Em várias ocasiões disse neste espaço que, se pudesse, pagaria do meu bolso viagens para nossos governantes, especialmente os vereadores. Não iria mandá-los para Cabo Frio, Maceió e Foz do Iguaçu onde adoram fazer seus congressos de mentirinha torrando diárias pagas com nosso dinheiro. Queria que fosse para a China, passar pelo menos duas semanas em Xangai, observando o que é planejar, investir em infraestrutura e tornar viável, suportável a mobilidade urbana.

Se pudesse, faria um programa de dez horas seguidas, em cadeia de rádio e TV para tentar convencer as pessoas de que toda mudança gera estresse, todo progresso é precedido de incomodo, enfim, como já diziam nossas bisavós, não se faz omelete sem quebrar ovos. Ora, vivemos entre dois extremos na cidade: quando um vizinho resolve infernizar a vida do outro consegue por anos a fio porque não temos o cumprimento das leis com o rigor que gostaríamos. Por outro lado, toda vez que tentamos fazer algo diferente, novo, encontramos as barreiras mais contundentes.

Exemplo? Paul vem nos visitar, faz um show inesquecível, esbanja simpatia, profissionalismo, competência… No outro dia, no lugar de a gente comemorar, começa a reclamar de banheiro, de fila, de ingresso, de preço, de tudo… Se a gente não se cuidar, deixa-se levar pelo pessimismo e fica um chato de galocha. Todo dia peço a papai do céu para não me deixar entrar na turma da tristeza, na turma do contra. Vamos pensar grande, torcer pelos empreendedores, sonhar com shows dos Beatles, acreditar em Deus e nas pessoas… Afinal, se a gente ficar só na dengue, corrupção e impunidade nosso destino será uma depressão incurável.

Equivocados

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Sempre me impressionou a distância entre os anseios mais urgentes do povo e os discursos dos candidatos. Durante a campanha fica pior, mas, para não parecer alguém que quer tomar o lugar dos marqueteiros e ganhar as fortunas que recebem, evito ficar falando. Só que as repercussões do 1º de maio foram demais. A Dilma foi para a TV destacar a preocupação com a inflação e seu principal oponente, o Aécio, escolheu o mesmo tema para cutucar os petistas. Ora, todos nós tememos a volta daqueles tempos de preços malucos, reajustes várias vezes ao dia, mas, é preciso dizer aos que querem nosso voto em 2014 que os tempos são outros. No mesmo Dia do Trabalhador o Datafolha anunciou pesquisa que repetiu as perguntas de 30 anos antes e colocou as coisas nos seus devidos lugares: hoje, as preocupações dos brasileiros são mais urgentes. Queremos segurança, poder sair às ruas, estancar o avanço da praga mais destruidora – as drogas.

Se, em 1983, a maioria dos brasileiros temia a alta do custo de vida, hoje quase a metade de nós teme é que um filho se envolva com as drogas. E é simples: em 1983 a inflação superou 200 por cento no país, contra uma estimativa de 6 por cento esse ano. E, atenção senhores governantes, depois das drogas, nossos maiores medos são ter a casa invadida por assaltantes e ser assaltado na rua. Outra coisa: o medo de perder o emprego ronda apenas 5 por cento dos brasileiros… Podemos sim acreditar nos economistas de que estamos perto do que chamam de pleno emprego; nossa preocupação deve ser outra, destacada pelo sociólogo Luiz Flávio Sapori, que é a de aumento da criminalidade mesmo em tempos de crescimento da renda, mesmo para os mais pobres.

Alguém precisa dizer para os que ocupam os palácios que estamos morrendo de medo, na Savassi, no Palmital, no Belvedere, no Serra Verde, no campo, no shopping, na joalheria, na padaria, na farmácia, na festinha com amigos… Ah, e estamos apavorados com o avanço das drogas, seus estragos enquanto os que podem reagir discutem firulas para 2014. Ah, e não precisa ir longe para aprender, é só conversar com um dos seus, o deputado Duílio de Castro que traz no rosto das marcas dos ladrões. Fala com ele, gente!

Interditados

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Quem de nós, em sã consciência, não é a favor da reivindicação, da luta e da livre manifestação das pessoas? Quem, entre os que defendem de fato as liberdades, pode proibir que os oprimidos gritem a plenos pulmões contras as injustiças, as indiferenças e as omissões? Então, não me acusem de ser contra a democracia porque direi que em todos os espaços que a vida profissional me oferece  – incluindo esse minifúndio – estarei sempre às ordens para reverberar os anseios dos que precisam ser ouvidos.

Mas, não me peçam para tolerar mais as interdições de vias públicas sejam elas praças, ruas ou rodovias porque não consigo aceitar. E é simples a argumentação: como a gente pode fechar a Afonso Pena porque 100 ou 200 pessoas querem, em prejuízo de 2,5 milhões de habitantes? Como é possível que num só dia os estudantes de Medicina tumultuem toda a região hospitalar pela manhã e, à tarde, guardas municipais deitem na porta da Prefeitura, fechando todo o fluxo de veículos? Faz sentido os professores bloquearem a Antonio Carlos, numa noite de jogo do Brasil, prejudicando os que iam ao estádio, mas, principalmente, centenas de milhares que só tentavam chegar em casa, na região Norte, depois de um dia de trabalho? E moradores de Esmeraldas, sem água há alguns dias, fechando a BR 040 por horas para reclamar?

Como temos eleições de dois em dois anos, nossos governantes são fracos, têm medo de tomar medidas polêmicas, e nossas autoridades policiais se sentem acuadas, não fazendo o seu trabalho de liberação das pistas. A ousadia é tamanha que, nesta semana, embora a Justiça tenha proibido a interdição de todas as pistas, estabelecendo multa de 100 mil reais por dia, em caso de desobediência, servidores da Prefeitura fecharam tudo alegando simplesmente que não haviam recebido comunicado. A presidente do Sindicato da categoria afirmou que se o prefeito não quiser tumultuar a cidade é só liberar o aumento. O prefeito pode até merecer a reprimenda, mas, nós, os pagadores de impostos, que temos compromisso com o trabalho, com a escola, a família, a vida, não. Eu fico duplamente impressionado: com o festival de fechamento de ruas, numa cidade já sufocada pela imobilidade urbana, e o silêncio covarde de governos e da sociedade, aí incluídos nós, os jornalistas, porta-vozes da maioria.

Era para ser um dia feliz

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O passar dos anos para um profissional resulta em experiência e constatações. Durante trinta anos, sempre que chegava o 1º de maio e eu abria o gravador para as lideranças sindicais o discurso era inevitavelmente o de lamento. Algo mais ou menos assim: “Não temos o que comemorar; nosso salário é dos menores do mundo, o desemprego assola os lares brasileiros e os mais pobres pagam o preço mais alto”. Os tempos mudaram, o mínimo ficou três vezes acima do sonho (100 dólares), a taxa de desemprego em Belo Horizonte é quatro vezes inferior à de um país que era nosso sonho de consumo – a Espanha – e a gente não está comemorando. Por quê?

Muito provavelmente estamos boquiabertos porque os encarregados dos discursos não têm o que dizer e nós outros não estamos preparados para cobrar com a devida veemência. Os sindicatos estão no melhor dos mundos porque há um bom faturamento compulsório, isto é, o trabalhador paga por obrigação, e, no caso dos líderes que se mexem, a assistência à saúde é um bom exemplo de como oferecer alternativas concretas e cativar mais associados. Desinteressados, por não entenderem a importância de sua representação, os membros de uma categoria não se esforçam para assumir suas responsabilidades e colocar pessoas sérias à frente das entidades.

Paralelamente, o velho refrão de que falta de emprego e oportunidade resultaria sempre em violência já não vale. Gente estudiosa como Luís Flávio Sapori assegura que uma coisa não tem nada a ver com a outra. E nem era preciso, afinal, toda hora vemos patrões em desespero com vagas não preenchidas e jovens saudáveis insistindo em assaltar, violentar, barbarizar… E não é só. Sequer no dia dedicado ao trabalhador aqueles que o representam se entendem. É só dar uma olhada pela cidade hoje.

Os “cristãos” na Praça da Estação, a Força Sindical na Via 240, os da construção pesada no Mineirão… Era para ser um dia feliz, de encontro, reflexões, comemorações, Ah se as centrais e seus sindicatos falassem sério pelo menos na hora de enfrentar o governo e exigir avanços, além de pugnar por justiça e igualdade, como, por exemplo, acabar com o famigerado fator previdenciário!

Eu já sabia

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Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas resultou em algo que todos os criados na roça, nascidos em meados do século passado e filhos de pais trabalhadores já sabiam: quanto mais pobre é o cidadão mais ele obedece as leis. E é simples a justificativa que o meu, o seu pai sempre dizia, em tom ameaçador e sem chance de discussão: “A única coisa que pobre tem é o nome; então, não o perca meu filho”.

É claro que existem os malcriados, em todas as classes sociais, mas, em geral, os pais afastavam qualquer chance de a gente pegar o que não nos pertencia ou deixar de cumprir um dever, pagar um imposto, ainda que se sentindo injustiçado. Lembro-me perfeitamente de quando minha mãe descobria um lápis diferente no estojo e perguntava onde havia conseguido. Achei mãe, dizia, já preparado para a bronca que vinha em seguida: “Engraçado; não acho nada, portanto, vá lá, deixe onde estava, e rápido, antes de seu pai chegar”.

Inédito, o estudo foi elaborado pelo Centro de Pesquisa Jurídica Aplicada da Faculdade de Direito da FGV entre o último trimestre de 2012 e o primeiro de 2013. Foram entrevistadas, por telefone, 3.300 pessoas maiores de idade nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Amazonas e do Distrito Federal. Com as respostas, os pesquisadores elaboraram dois índices para avaliar a relação dos entrevistados com a Justiça: o subíndice de comportamento, que mede o nível de cumprimento da lei numa perspectiva individual; e o subíndice de percepção, que avalia como o entrevistado enxerga a eficiência da Justiça a partir de quatro indicadores (instrumentalidade, moralidade, controle social e legitimidade).

Com as respostas, os pesquisadores montaram índices e gráficos confirmando que a percepção do cumprimento da lei é maior entre os que ganham menos.  Ficou claro que a maioria esmagadora dos brasileiros condena atos irregulares, como jogar lixo na rua, dirigir embriagado e estacionar em local proibido, mas, poucos de fato repudiam a compra de um CD pirata. No fundo, no fundo,  é simples: os ricos não ligam para pequenos delitos porque se sentem acima da lei; os muito pobres já se sentem à margem da lei; então, sobra para os que estão sonhando com dias melhores a preocupação permanente em fazer a coisa certa.

Falta dinheiro ou gerência?

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Vez por outra me pergunto se não sou conivente com propaganda enganosa dos governos. O problema é que a correria de repórter é tamanha que não consigo investigar ou, pelo menos, analisar números, fatos e discursos. Recentemente, apareceram algumas pulgas atrás de minha orelha em relação ao Governo de Minas. O primeiro choque foi saber que a Polícia Civil não estava conseguindo recolher os cadáveres. O segundo foi ouvir que haverá terceirização do serviço (será que teremos fiscalização a fim de garantir a lisura do processo, considerando a antiga fama dos papa-defuntos?)

Agora, tomei outro choque com a decisão do juiz Guilherme Sadi que, na última sexta-feira, mandou soltar dois receptadores considerando que os esperou por três horas no fórum e veio a notícia de que não iriam, por falta de transporte… O problema se repete com frequência irritante, garante o magistrado, dizendo que além dos três mil processos a maior dificuldade na sua vara criminal é a falta dos réus, ora porque não houve transporte ora porque não havia escolta. Então, para não ser responsabilizado por excesso de prazo, decidiu por os réus na rua, o que, admite, é ruim para a sociedade. A Secretaria de Defesa Social admite, em nota, que o quadro exige respostas:

“A Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi) informa que tem ciência dos problemas com escoltas de presos ocorridos nos últimos meses e que, para solucionar a questão, comprou 26 novas viaturas cela, com capacidade de transporte para oito detentos cada. Os novos veículos já começaram a rodar. A expectativa é que o passivo de escoltas seja normalizado até o meio da próxima semana. Vale ressaltar que também estão em processo de compra 160 automóveis Pálio Adventure Locker, 50 vans modelo Jumper, 22 motocicletas de 250 cilindradas, e dez Pajeros Dakar, que reforçarão o trabalho de escolta da Suapi”.

De duas uma: ou o governo anda mesmo sem dinheiro para suprir as necessidades mais básicas do custeio ou carece de gente capaz de dirigir, respeitar a logística, gerenciar as prioridades para evitar danos maiores. E repare que estávamos falando de segurança pública… Na educação e na saúde é melhor nem pensar.

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