“Enfim, fevereiro!” Texto de Selma Sueli Silva
04 de Fevereiro de 2012 por José Lino | Categorias: Texto de Abertura do Programa Rádio Vivo | 0 Comentários »
Destaque da Semana
O ano acaba de começar e já penamos com as chuvas, nos assustamos com navio naufragado na Itália, sofremos com prédios que viraram pó: no Rio de Janeiro e aqui. De concreto mesmo, só a certeza de que quem sobreviveu a essas tragédias, está sozinho, sem lenço e sem documento.
Na semana do início de fevereiro, a realidade aparece na versão do retorno do trânsito pesado, das campanhas da BHTrans, dos motoristas mal educados e, infelizmente, muita lamentação e pouca – ou nenhuma – ação. É o ano novo e seus velhos problemas: buracos nas ruas e mais carros à vista. Depois das chuvas de janeiro, as ruas de Belo Horizonte ganharam 20 mil novos buracos. Enquanto isso, a frota de Belo Horizonte superou 1 milhão e 400 mil veículos, o que significa 4,34 carros por 1 mil metros quadrados – de vias esburacadas, bem próximo da concentração da capital de São Paulo, que é de 4,38. Imaginem então a situação na próxima segunda-feira, quando mais colégios retornam às atividades, inclusive as escolas da rede pública.
É por essas e outras que muita gente já respira aliviada com o pensamento de que daqui a pouco tem nova folga para refrescar os nervos: olha o carnaval aí gente….
Quiséramos nossas preocupações ficassem por aí, no trânsito e nos buracos. Mas não, há sempre o lado obscuro do ser humano a nos lembrar que nada é tão ruim que não possa piorar.
Na quinta-feira, o horror estava estampado nas manchetes: a procuradora federal Ana Alice Moreira de Melo, de 35 anos, foi brutalmente assassinada no condomínio de luxo em que morava, em Nova Lima. O empresário e marido da procuradora, Djalma Brugnara Veloso, de 49 anos, era o principal suspeito de cometer o crime.
Para piorar o drama que certamente só é sentido em toda sua extensão pelas famílias envolvidas, o empresário foi encontrado morto algumas horas depois. Ele teria cometido suicídio. E assim, de uma hora para outra, fatos que só diziam respeito àquela família começam a ser revelados, na tentativa de elucidação do caso.
O melhor a se fazer é, então, tentar aprender com a experiência para evitar a repetição de ações que poderiam – e deviam – ser evitadas:
1. É preciso encontrar mecanismos que efetivamente protejam mulheres ameaçadas por companheiros inconformados com o fim do relacionamento: Em Minas, são mais de 46 mil mulheres nessa situação, com pedidos de proteção aguardando julgamento.
2. Depois que a tal medida protetiva for expedida há que se rever o acompanhamento dos casos. No caso da procuradora, no dia 25 de janeiro, a Justiça expediu a medida, determinando que Djalma mantivesse no mínimo 30 metros de distância da mulher e dos filhos. O empresário foi notificado da sentença na última quarta-feira, o que pode tê-lo levado a cometer o assassinato horas depois.
3. Ana Alice Melo decidiu pedir a separação de Djalma Veloso após receber fotos dele com outra mulher, de acordo com pessoas que conheciam o casal. As imagens, enviadas pelo marido da amante, teriam sido a gota d’água para a procuradora colocar um fim no relacionamento. É humano que a pessoa que se sinta traída tenha o desejo de revidar. Magoada, quer magoar. Contudo é melhor pensar duas vezes nas consequências que uma atitude assim pode desencadear.
4. Que medidas efetivas sejam tomadas contra os autores de crimes dessa natureza independente do endereço do criminoso, quer seja um condomínio de luxo ou um barracão no bairro Letícia.
5. Por fim, fica o desejo do atendimento ao apelo da família de Ana Alice: {{“No sentido de preservar a integridade psicológica dos filhos, a família de Ana Alice Moreira Melo conta com a compreensão de toda opinião publica em relação à decisão de não se manifestar a cerca dos fatos que culminaram em tragédia tão dolorosa. Entendemos que essa postura contribui para reflexão da sociedade sobre a violência contra mulher, bem como sobre a violência como um todo. Ana Alice foi mãe, filha, irmã, amiga e profissional exemplar. Acreditamos que essa conduta é a melhor forma de homenagear sua memória e retribuir o seu amor. Contamos com a compreensão de todos.”}}
E podem mesmo contar com essa compreensão, ainda mais agora que a delegada responsável pelo caso deve pedir o arquivamento dele, já que com a morte do principal suspeito, caracteriza-se a impossibilidade de punição para o homicídio. E aqui vale lembrar que por mais horrível que tenha sido a morte de Djalma, ela foi uma escolha dele. Uma escolha que, infelizmente, ele roubou da mãe de seus filhos. Se ele escolheu a morte, Ana Alice não teve sequer a chance de escolher a vida!
A nós da imprensa, cabe, então, o dever – muitas vezes doloroso – de noticiar os fatos e suas consequências, com o objetivo e o desejo de desencorajar outras atitudes extremadas e violentas em nome do amor.
De tudo, fica a antiga e profunda certeza: quem ama, não mata!
