A coluna desta semana conta com a colaboração do Diretor Geral de Mídia da Grey Comunicação, Adão Casares – grande figura, excelente profissional de mídia e estudioso do assunto.
No texto, Adão apresenta,com um toque de humor, situações vividas em uma agência de comunicação e enfatiza, com inteligência, a importância da pesquisa nos planos de mídia.
Boa leitura e Viva Você!
O Diretor de Atendimento adentrou na agência, olhou 360 graus, caminhou para o Departamento de Mídia. Como de hábito, estava tranquilo, pouco preocupado, dirigiu-se para o local onde o Diretor de Mídia conversava com parte de sua equipe.
Olhou em volta, mediu cada um dos profissionais que estavam envolvidos na conversa, fixou-se no Diretor de Mídia e disparou: – “Estamos em um prospect, precisamos conversar neste instante, prioridade máxima, ímpar!
O Diretor de Mídia olhou com o canto dos olhos para o Diretor de Atendimento, estava acostumado com o “falso sentido de urgência” que paira sobre uma agência de propaganda. Pediu tempo e continuou com a reunião junto com a equipe. Porém, o mal estava feito. No paralelo, metade do Departamento de Mídia ampliava a parabólica particular buscando saber quem era o prospect, seria a tão esperada grande conta que a agência vinha almejando?
Já a outra metade do Departamento de Mídia se escondia atrás da mesa, do computador, do Mídia Dados, do Mídia Fatos, do Anuário de Propaganda. Crescia no horizonte a chance do prospect pousar sobre suas mesas! Evidentemente tomaria a madrugada adentro, alguns mais afoitos já imaginavam o sabor da pizza que chegaria por volta das 23h ou mais. Mais uma noite sem balada, sem família; enfim, mais uma vez o mal vencia o bem, e isso estava virando rotina.
O Diretor de Mídia dirigiu-se ao Diretor de Atendimento, que por sinal arrumava os cabelos caprichosamente pelo reflexo do espelho da janela, muito à vontade, para algo tão importante, ou pelo menos era a impressão que passava.
– “Prospect, isso é bom, de quem estamos falando” –, indagou o Diretor de Mídia.
Para frustração do Departamento de Mídia, que novamente ampliou o ouvido para saber qual era o prospect, o Diretor de Atendimento aproximou-se do Diretor de Mídia, colocou o braço sobre seu ombro e caminharam juntos para uma das salas. Como todas as salas da agência são de vidro, aumentava a angústia, pois se via, mas não se ouvia.
Atitude correta, um prospect não deve ser do conhecimento de todos (o que geralmente acaba acontecendo nas próximas duas horas após a primeira conversa), em muitas vezes o prospect não é prospect, e sim uma tentativa, um “arrastão” no quintal do vizinho.
Voltando ao diálogo dos diretores.
Pergunta o Diretor de Mídia: – “Quem é o prospect, quando teremos a reunião com as demais áreas da agência: planejamento, criação, operações, e temos uma ideia da proposta financeira? Vamos discutir o briefing? Quando e onde será a apresentação?”
O Diretor de Atendimento, agora candidamente observando suas unhas, dirigiu-se suavemente para o Diretor de Mídia e sem pestanejar disse: – “É amanhã, às 17h, em Jundiaí!”
O Diretor de Mídia após levantar-se do chão, levou um susto, um choque. As coisas não podem ser dessa maneira! Com as mãos semiabertas na direção da jugular do Diretor de Atendimento, conteve-se, afinal precisava do “amigo” e questionou:
– “Como assim, às 17h???. Para estarmos amanhã no local, no horário, nem trabalhando a noite toda e com todo o departamento a todo vapor… e olha que somos 15 pessoas.”
– “Sinto muito, até parece que você esta desmotivado, o presidente da empresa concordou com o prazo” –, arrematou o Diretor de Atendimento.
– “Mas é impossível fazer tudo” – disse o Diretor de Mídia –, “temos que levantar as informações do Monitor Evolution, buscar outras no TGI, ver o comportamento do target, desenvolver rankings dos meios, assuntar onde podemos ter as big ideias (todo anunciante quer, mas ao mesmo tempo não quer pagar o custo justo); enfim, tem coisa pra caramba para ser feita para darmos um show amanhã?”
– “Verdade, importante você colocar isso” – disse o Diretor de Atendimento com uma serenidade irritante –, “o presidente colocou ao prospect que você vai apresentar todo esse aparato em um belo PowerPoint, com aquelas frescuras de abre janela, fecha janela. Prometeu também que você vai levar uma proposta matadora aumentando o desconto médio na compra de mídia em 20% no mínimo!”
Novamente o desejo de dar uma voadora no Diretor de Atendimento passou pela mente do Diretor de Mídia… Porém, o mal já estava feito.
Vida real: geralmente o que mais se tem em uma agência de comunicação é a falta de comunicação. Boa parte das pessoas acham que na área de mídia, tudo está pronto, muda-se uma coisa ou outra e o software arredonda tudo.
Mentira!!!! Cada trabalho do profissional de mídia, na maioria das vezes, começa do zero! Aproveita-se muito pouco do que já foi feito. E mesmo que aproveitasse, tem sempre o maldito custo, que deve ser conferido, pois cada veículo corrige sua tabela no mês que lhe convém.
O anunciante, por sua vez, tem sua culpa também, deveria exigir cada vez mais planos de mídia com informações de pesquisa, interessar se pelo trabalho, saber como foi construído, como pensa seu profissional de mídia, dar insights que permitam ter as tão desejadas big ideias, e não apenas encantar-se com uma planilha colorida com flights e custos! Cronograma de mídia não é um plano de mídia.
Plano de mídia tem que ter estratégia de mídia, pensamento de mídia. Tática de mídia qualquer um faz. Na verdade, o PC o software monta! Exijam isso, amigos anunciantes, o dinheiro é seu!
Como ter um plano sem, por exemplo, o Media Workstation Ibope, que apresenta as audiências, afinidades (importantíssimo), e perfis das emissoras e programas de TV aberta e fechada. Sem isso, toda programação corre o risco de ficar no gosto pessoal de quem faz ou aprova!
Como não utilizar o Planview, que processa a simulação do plano de mídia, que define os níveis de TRP + cobertura, frequência média. Sem isso, tanto faz um trabalho com 100 ou 1.000 trps, tudo fica igual. Ou melhor: menos uma coisa, o plano de 1.000 trps vai custar bem mais caro, e, quem sabe, com 500 trps tudo estaria resolvido.
E nosso amigo TGI (Target Group Index) tem que estar presente na estratégia, estudo que apresenta os hábitos de mídia, consumo de produtos, atitudes e atividades diárias, como se furtar deste software?
Como não ter o Monitor Evolution, software que apresenta uma fotografia de investimento publicitário da concorrência. Permite análises da categoria, do mercado e até ver o plano de mídia do inimigo!
E, não menos importante, todo o faturamento deve estar acompanhado do controle da veiculação, do Checking. Afinal, amigo anunciante, você paga por isso!
Por fim, meu caro amigo anunciante, pense bem, ou avalie melhor, porque ao escolher uma nova agência, abrir uma concorrência, que a escolha seja sabia. Coloque no seu check-list o que as agências selecionadas por você têm como ferramentas de mídia, se os profissionais que manipulam essas mesmas pesquisas fazem regularmente os cursos que os institutos oferecem (gratuitamente).
Não se entusiasme com os bons discursos nas apresentações, vá fundo, o barato sai caro, na maioria das vezes.