‘Que atire a primeira pedra…’ Texto de Selma Sueli Silva
23 de Junho de 2012 por José Lino | Categorias: Texto de Abertura do Programa Rádio Vivo | 0 Comentários »
Destaque da Semana
O falecido Ulysses Guimarães, que o mar o tenha, dizia que “o poder é afrodisíaco, o problema são os efeitos colaterais”. Frei Betto, no seu excelente “A mosca azul”, diz que “o poder não muda ninguém; apenas revela”. Então aqui está o primeiro efeito colateral do poder. E não é só, há mais: o poder também afeta a memória. Causa assim, digamos, uma amnésia seletiva. Exemplos não faltam para comprovar a tese: O general Figueiredo, ao deixar o poder disse: “Me esqueçam”, no que foi rapidamente atendido, ainda bem! FHC, ao ser reeleito para um segundo mandato, foi logo avisando: “esqueçam tudo o que escrevi”. Já Luiz Inácio, ao vestir o primeiro terno presidencial, esqueceu os comícios na Vila Euclides, os discursos de campanha, as promessas aos aposentados. Fingiu até que nunca tinha ouvido falar em Fator Previdenciário e seguiu, lépido e feliz, pelos oito anos de seu mandato, assim, desmemoriado!
Mas vamos nos ater ao exemplo de Lula já que nele, os efeitos amnésicos do poder são mais evidentes e impactantes. E não poderia ser diferente devido à sua origem e história pessoal, à trajetória sindical, à expectativa que criou no povo brasileiro e, claro, pelo papel que representou no cenário político.
Todos se recordam da eleição direta de 1989? O Brasil dava os primeiros passos no lento processo de redemocratização e Lula aparecia como alguém diferente em meio àquela arroba de candidatos. Ele era o sujeito que vinha do povo, com cara e voz de povo, o Silva da senzala desafiando Sinhô Collor, esse sim, o dono da Casa Grande, com rosto e voz de príncipe para o delírio do eleitorado feminino.
No segundo turno daquela eleição, Lula e o PT rejeitaram a presença de Ulysses Guimarães no palanque, pois ele representava o PMDB. E olha que era um PMDB pre Michel Temer, um PMDB de Tancredo Neves. Mas para Lula e o PT daqueles tempos, a pureza da proposta do partido era inegociável. Naquela eleição, Lula quase chegou lá. Depois disso, marqueteiros passaram a dar as cartas e Luiz Inácio Lula da Silva foi se agigantando, se transformando no Lulinha paz e amor, e o Lula mesmo, aquele barbado, com cara de povo, foi diminuindo, diminuindo até que em 2003, finalmente, Luiz Inácio chegou lá deixando o Lula, de vez, no passado.
Mas, é bom que se diga, não somos ingênuos, sabemos que não existe ninguém de todo mau ou bom. Por isso, com a chegada ao poder, muita coisa foi feita pelo Lula do povo, para o povo, enquanto o Luiz Inácio era devorado pelas tais articulações políticas – próprias do regime de governo à moda da casa Brasilis. E assim, infelizmente, Luiz Inácio não conseguiu superar os dois venenos injetados na alma dos brasileiros, em doses antes, homeopáticas, e agora cavalares: o preconceito e a certeza de que somos todos corruptos. De fato ou em potencial.
O mundo recebeu o trabalhador que mal sabia falar o português, com honras de chefe de Estado. É bom que se fale outros idiomas – o que não era o caso de Lula, mas é melhor ainda que se tenha o que falar. O mundo moderno anseia por mais ações e menos discursos, teses, estudos, pesquisas e bla, bla, bla, bla, bla. Então, ao longo de oito anos, Luiz Inácio foi marcando ponto daqui, perdendo o bonde da história dali – os aposentados que o digam – até chegar ao seu grande feito; garantir a eleição de Dilma Roussef. A candidata “inventada” pelo presidente, sem traquejo, sem nenhum voto no currículo, de cintura política dura, ultrapassou Serra e se elegeu, contra tudo e contra todos.
Mas Luiz Inácio continuou por ali, nos arredores do poder, mesmo com uma doença no meio do caminho. Quimioterapia a parte, o poder tem limites. Mas o ex-presidente parece não entender isso, quando vem aí outra eleição. Luiz Inácio, agora, quer ganhá-la a todo custo. O prêmio é a prefeitura de São Paulo, um feudo do PSDB, um espinho na frágil garganta de Luiz. E como desde que república é república, vale tudo na campanha, o jeito foi inventar outro candidato. Ah, nem… Mas observem, deu certo com Dilma, por que não daria com Haddad, aquele do caos do Enem, isso mesmo Enem.
Assim, antigos inimigos se tornam parceiros – amigos para sempre. Olha a danada da amnésia aí! Qual a novidade? Nenhuma. Uma rápida busca pelo google e vem a confirmação: todos fazem assim. É verdade, mas em Lula, o gesto causa espanto, susto, quase desilusão. O Maluf não, Lula. O povo comemorou a derrota dele para Tancredo Neves, no Congresso, em 1985. Ele é procurado pela Interpol, com mandado expedido pela promotoria de Nova Iorque, que o acusa de movimentar, ilicitamente, milhões de dólares no sistema financeiro internacional sem justificativa fundamentada. É o nosso dinheiro, lembra? O dinheiro do trabalhador brasileiro.
Não, Lula, você não foi esperto porque achou Maluf antes da Interpol. Com Paulo Salim Maluf não existe aliança, existe algema. Maluf mais Haddad é ‘maldade’. Está certo que todo mundo já fez aliança com Maluf, mas você…? O preço é muito alto para conseguir mais tempo na TV. Conseguir? É o que vamos ver, Lula. O Maluf rouba sempre e, com certeza, ele vai roubar a cena.
Foi Paulo Maluf, o mesmo do “rouba mas faz”, “mente e não convence”, “faz e ninguém prova” que disse, certa vez: “em política, o feio é perder”. Luiz Inácio agora, aposta nessa máxima e, por isso, foi à casa de Maluf. E é um Luiz Inácio patético, envelhecido pela doença, que posa com um sorriso desconfortável ao lado do novo aliado. Mas Erundina disse não. E explicou: “Não dá para subir no palanque ao lado de um senhor que chamei, a vida inteira, de corrupto”. Essa é a nossa esperança, que o político coerente, seja de qual partido for, não caia, um a um, diante do oportunismo da vez.
